A Velha que vivia dentro de uma garrafa de vinagre. (Ângela Carter)



18 de julho de 2013



    Era uma vez uma mulher que vivia dentro de uma garrafa de vinagre. Uma vez uma fada estava passando por ali e ouviu a velha falando consigo mesma:

    “É uma tristeza, é uma tristeza, é uma tristeza”, a velha dizia. “Eu não deveria viver dentro de uma garrafa de vinagre. Eu deveria morar num chalezinho coberto de colmo, com as paredes cobertas de rosas – isso sim.”

    Então a fada disse: “Muito bem, quando você for dormir esta noite, vire-se na cama três vezes, feche os olhos, e de manhã você vai ver só uma coisa”.

   Então a velha foi dormir, virou-se na cama três vezes, fechou os olhos, e na manha seguinte lá estava ela numa bela cabaninha com telhado de colmo e paredes cobertas com rosas. Ela ficou muito surpresa e muito contente, mas se esqueceu completamente de agradecer a fada.

    E a fada foi para o norte, foi para o sul, foi para o leste e foi para o oeste, por causa de um negócio de que esta tratando. A certa altura ela pensou: “Vou ver como está aquela senhora. Ela deve estar muito feliz em sua cabaninha”.

   Quando a fada chegou diante da porta da velha, ouviu-a falando consigo mesma:

    “É uma tristeza, é uma tristeza, é uma tristeza. Eu não deveria viver sozinha numa cabana pequena como esta. Eu deveria morar numa bela casinha junto com outras casas, com cortinas de renda nas janelas, aldrava de metal  na porta, e gente vendendo mexilhões e amêijoas às portas, todos alegres e contentes”

     A fada ficou muito surpresa, mas disse: “Muito bem. Quando for dormir esta noite, vire-se na cama três vezes, feche os olhos, e de manhã você vai ver só uma coisa”.

     Então a velha foi dormir, virou-se na cama três vezes, fechou os olhos, e de manhã lá estava ela na sua bela casinha junto com outras casas, com cortinas de renda nas janelas, todos alegres e contentes. Ela ficou muito surpresa, e muito satisfeita, mas se esqueceu completamente de agradecer a fada.

    E a fada foi para o norte, foi para o sul, foi para o leste e para o oeste por causa de um negócio que estava tratando. Depois de certo tempo, ela pensou consigo mesma: “Vou ver como está aquela senhora. Com certeza ela agora está feliz”.

    E, quando ela chegou à ruazinha, ouviu a velha falando para si mesma: “É uma tristeza, é uma tristeza, é uma tristeza. Eu não deveria morar numa ruazinha como esta, cercada de gente vulgar. Deveria viver numa grande mansão no campo, com um grande jardim em toda a sua volta, e criados que atendessem ao toque de uma campainha”.

    A fada ficou muito surpresa, e até mesmo aborrecida, mas disse: “Muito bem, vá dormir, vire-se na cama três vezes, feche os olhos, e amanhã você vai ver só uma coisa”.

    E a velha foi dormir, virou-se na cama três vezes, fechou os olhos, e na manhã seguinte lá estava ela numa grande mansão no campo, rodeada por um belo jardim, com criados atendendo ao chamado de uma campainha. Ela ficou muito contente e muito surpresa, e aprendeu a falar com delicadeza, mas se esqueceu completamente de agradecer a fada.

     E a fada foi para o norte, foi para o sul, foi para o leste e para o oeste, por causa de um negócio que estava tratando. Depois de certo tempo ela pensou consigo mesma: “Vou ver como está aquela senhora, com certeza ela agora está feliz”.

     Mas mal ela se aproximou da janela da sala de visitas da velha, ouviu-a falar consigo mesma em tom suave:

    “É realmente uma grande tristeza que eu viva sozinha neste lugar, onde não existe vida social. Eu deveria ser uma duquesa, andar na minha própria carruagem para servir à rainha, com criados de libré ao meu lado”.

     A fada ficou muito surpresa e muito consternada, mas disse: “Muito bem. Vá dormir esta noite, vire-se três vezes na cama, feche os olhos e de manhã você vai ver só uma coisa”.

    Então a velha foi dormir, virou-se na cama três vezes, fechou os olhos. E na manhã seguinte, lá estava de duquesa, com sua própria carruagem para servir à rainha, acompanhada de criados de libré. Ela ficou muito surpresa e muito contente. Mas  se esqueceu completamente de agradecer a fada.

    E a fada foi para o norte, foi para o sul, foi para o leste e para o oeste, por causa de um negócio que estava tratando. Depois de certo tempo, ela pensou consigo mesma: “Vou ver como esta aquela senhora. Com certeza ela está feliz, agora que é uma duquesa”.

      Mas mal se aproximou da grande torre da mansão da velha, ela ouviu-a dizendo num tom mais delicado do que nunca: “É realmente uma grande tristeza que eu seja duquesa e deva reverências à rainha. Por que eu própria não posso ser uma rainha e me sentar num trono de ouro, com uma coroa de ouro na cabeça e cortesãos à minha volta?”.

      A fada ficou muito desapontada e muito furiosa, mas disse: “Muito bem. Vá dormir, vire-se na cama três vezes, feche os olhos e de manhã você vai ver só uma coisa”.

      Então a velha foi dormir, virou-se na cama três vezes e fechou os olhos. Na manhã seguinte lá estava ela num palácio real, uma legítima rainha, sentada num trono de ouro, com uma coroa de ouro na cabeça e cercada de cortesãos. Ela estava absolutamente encantada, e dava ordens a torto e a direito. Mas se esqueceu completamente de agradecer a fada.

     E a fada foi para o norte, foi para o sul, foi para o leste e oeste, por causa de um negócio de que estava tratando. Depois de certo tempo, ela pensou consigo mesma: “Vou ver como está aquela senhora. Com certeza agora ela deve estar satisfeita!”.

      Mas logo ela se aproximou da sala do trono, ouviu a velha dizendo:

      “É uma grande tristeza, uma tristeza muito grande mesmo, que eu seja a rainha de um ‘paisinho’ insignificante como este, em vez de reinar sobre o mundo inteiro. Eu serviria mesmo era para ser papa, para imperar sobre as mentes de todos na terra.”.

     “Muito bem”, disse a fada. “Vá dormir, vire-se na cama três vezes, feche os olhos, e de manhã você vai ver só uma coisa”.

     Então a velha foi dormir, dominada por fantasias inspiradas pelo orgulho. Ela virou na cama três vezes e fechou os olhos. E no dia seguinte tinha voltado à sua garrafa de vinagre.


In: Carter, A. 100 Contos de Fadas para adultos. São Paulo, Companhia das Letras, 2005.

Glossário:

Amêijoas – do português (de Portugal), molusco bivalve, fruto do mar, conhecido no Brasil como vôngole;

 Libré - (do francês livrée: liberada, isto é, veste entregue a um servo ou criado, do latim vestis libera ou vestis concessa) é um tipo de capa sem mangas, com aberturas nas cavas, por onde passam os braços e na frente, onde é presa apenas no colarinho, deixando aparecer a veste inferior, na sua parte do peito. É usada pelos membros de confrarias quando participam de alguma função religiosa solene, e pelos membros de algumas cortes, no exercício de suas funções. As cores e o modelo da libré variam conforme os usos e costumes de cada corte.
                                               

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